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Depoimentos de Amigos e parentes de José Arnaldo - Por Cláudio Amaral

21/07/2022

 

Antônio Braojos Dantas, Médico em Marília, sobrinho: Entre os fatos pitorescos de José Arnaldo, nosso querido Tio Zéca, estão as comemorações do aniversário dele, que se davam sempre com uma recepção familiar noturna, onde vários parentes eram chamados. Eu, não do conhecimento de ninguém, tinha e gozava dum carinho muito especial tanto do Tio Zéca, quanto da Tia Cida. Pois bem: devido à minha profissão, eu chegava sempre mais tarde, por volta das 21 e 30, 22 horas, até mais, dependendo dos compromissos e dos afazeres no hospital. 

E quando eu chegava na casa dele, alguns parentes já estavam lá, todos já haviam comido alguma coisa e, sentadinho à mesa do fundo da cozinha, estava lá o Tio Zéca e ele, com aquele vozeirão característico, falava assim: Cida, pega aquele salgadinho que você guardou para o Toninho e que ninguém comeu. Senta aí, Toninho. Era muito engraçado. 

Uma coisa que marcou muito a minha infância era o dia primeiro de ano. Pela manhã, sempre por volta das 10 horas, minha mãe falava: fica prontinho porque o Tio Zéca vai passar aqui. Esse dia ele saia da casa dele cedo e visitava os parentes: as irmãs, entre elas a Tia Carminha, a minha mãe e depois ia lá na casa da Vó Rita (a segunda esposa do pai dele, o Avô Maneco). Esse era o trajeto dele. E ele sempre contava os casos, o que aconteceu e recebia um relatório da mãe, de como estavam os filhos. 

Ele aconselhava a todos, quando precisava; elogiava por causa da escola e do desempenho de cada um e por isso era muito gostoso esperar o Tio Zéca chegar. Ele tomava um cafezinho preto, puro, não queria mais nada e conversava bastante e contava suas histórias; muitas eu não entendia pela minha idade, mas era muito prazeroso, muito interessante e o mais interessante: uma criança, que na época tinha, como eu, oito ou nove anos, ficava esperando o Tio. Desde aquela época eu já tinha pelo Tio um carinho muito grande e, com certeza, ele tinha por mim também.


Eu, Cláudio Amaral, ainda não havia me casado com a Mulher da minha vida. Eu e a Sueli éramos apenas namorados. E estava eu em Oriente, cidade vizinha a Marília, numa manhã de fins de 1969 como repórter do jornal O Estado de S. Paulo. Fora cumprir uma pauta especial do Chefe Raul Martins Bastos: acompanhar uma noite completa dos presos da carceragem da Delegacia de Polícia de Oriente. Horas depois de idas e vindas dentro de um ambiente horrível, decidi que chegara o momento de voltar para Marília. Despedi-me de todos e fui em busca duma carona para voltar à redação do Jornal do Comércio, minha base de trabalho. 

Na rua, tomei o rumo da estação rodoviária, quando, inesperadamente, ouvi um barulho conhecido e familiar. Parei, me virei para o sentido contrário e lá estavam eles, o motorista e seu automóvel. O auto era um Gordini cinza, com anos e anos de uso; certamente com quilometragem alta. O motorista? Ninguém mais, ninguém menos que o Jornalista José Arnaldo, pai da minha namoradinha. De imediato, logo que me reconheceu, seu Zéca, como eu o chamava, me perguntou o que eu fazia naquelas bandas, tão longe de casa e do trabalho. 

Antes que eu pudesse responder, ele, muito gentil, disse-me: Entra. Vamos para casa. Entrei, sentei e logo fui explicando o motivo deu estar ali. Pensei em mostrar a pauta que havia recebido do jornal, mas não o fiz porque ele estava a dirigir. Em vez de mostrar o papel, fui explicando que o Estadão estava interessado em fazer uma ampla reportagem a respeito das condições em que viviam os encarcerados em todo o Brasil e por isso pedira a repórteres de todos os cantos (eu, inclusive) que conhecessem e relatassem uma noite, pelo menos, daqueles que estavam atrás das grades. 

A pauta pedia fotos, também. E foi o que eu fiz com a velha máquina fotográfica Flexaret VI Automat made in Czechoslovakia(*), que até hoje está cá comigo e que ainda é possível encontrar no mercado de usados por algo em torno de 150 dólares. Era um pequeno caixote que levava filmes de 120 milímetros e exigia revelação em quarto escuro. 

Lembro-me como se fosse hoje que o Editor de Fotografia do Estadão escolheu uma foto minha para ilustrar uma das páginas publicadas; ela, a foto, mostrava as mãos, e só as mãos, de presidiários angustiados e sofrendo com as condições desumanas do local e com a demora das respectivas sentenças, sempre demoradas, porque, tal qual nos nossos dias, a Justiça era demorada. 

Lenta e seguramente, o meu futuro sogro e este futuro genro chegamos a Marília e ele parou na porta da residência da Família Bravos, na Rua Nelson Spielmann, quase esquina com a Rua Paraná, bem em frente ao Colégio Sagrado Coração de Jesus, onde estudava a jovem a quem eu viria desposar no dia 5 de Setembro 1971. Ali mesmo nos despedimos, com os meus agradecimentos pela carona. E segui caminhando até a casa dos meus pais, na Avenida República, a poucos metros do Estádio Bento de Abreu Sampaio Vidal, o Abreuzão de tantas e boas memórias.

 


A Sueli e eu resolvemos que deveríamos nos casar. E essa decisão nós tomamos antes do fim do ano de 1970, quando eu ainda trabalhava em Marília. Foi logo depois deu ter decidido pedir demissão do Jornal do Comércio, porque o Estadão me convocara para atuar como repórter da Sucursal de Campinas. Por conta dessa mudança de Marília para Campinas, e como eu não queria viver a amarga experiência de viver sozinho mais uma vez, combinamos que iríamos juntar nossas escovas de dentes, entre outros objetos. Até aí tudo bem. Havia consenso e vontade de ambos. 

O problema maior viria depois: como enfrentar o rigoroso e carrancudo pai dela, o seu Zéca. Imaginávamos que ele não me concederia a mão dela facilmente. Afinal, ela seria a primeira a casar dentre os seis filhos que ele tivera com a Dona Cida. A Sueli falou detalhadamente com a mãe, que estava sempre a botar panos quentes nas questões delicadas da família. E a mãe falou ao pai, num momento qualquer e adequado. Com tudo acertado, marcamos o noivado num almoço de domingo. Almoçamos todos e eu anunciei a troca das alianças. 

Não sem antes programar o disparo automático da minha Flexaret para que o momento mais importante até então ficasse registrado para a história. A nossa história. Mas ninguém imaginava que haveria um fato extra no momento da consumação. E todos ficamos boquiabertos com a reação do patriarca: rapidamente ele começou a soluçar e saiu correndo da mesa. Foi chorar lágrimas e mais lágrimas sabe-se lá onde, em algum canto da casa, longe dos nossos olhares. Anos depois, em tom de brincadeira, José Arnaldo reclamou: "Mas você casou com a minha filha sem nem ter pedido a mão dela a mim". Pano rápido.


Eu tinha 17 anos e estava na fase de fazer serviço militar. Por isso ninguém queria me dar trabalho. Fui então indicado a José Arnaldo porque estava à procura de emprego em rádio. Eu trabalhava em serviço de alto-falantes e os amigos me diziam que minha voz era de locutor. Fui então procurar a Rádio Clube e lá me recomendaram a seguir para a Rádio Dirceu, ao lado da Clube. José Arnaldo me recebeu com boa vontade. Miguel Neto era o administrador e disse que não poderia me registrar; só pagar salário (algo como um salário-mínimo). 

Por isso e outras atitudes dele, tenho boas recordações de Zé Arnaldo porque este se dispôs a ensinar o serviço; explicou o que eu tinha que fazer e onde buscar informações. Ensinou-me, inclusive, a datilografar, coisa que eu nunca havia feito. Adotei o nome profissional de José Rubens, inspirado em José Arnaldo. Na época, Zé Arnaldo transmitia jogos de futebol e Zé Rubens comentava, o que era novidade para mim, porque nunca soube disso; sabia que Zé Arnaldo comentava; narrar, não). Nos jogos que o São Bento, o time de futebol de Marília, fazia em outras cidades, Zé Arnaldo ia sozinho, por economia. E na volta ele contava a Zé Rubens as aventuras que havia vivido, inclusive as ameaças de agressões por parte da torcida adversária, pois, em geral, não tinha cabine exclusiva para fazer as transmissões; tinha, mesmo, que trabalhar em meio à torcida do time local. 

Contava que era obrigado a viajar no ônibus da delegação, onde, em geral, não tinha lugar para mais ninguém; nem para o comentarista, quiçá para o técnico de som. Zé Arnaldo era obrigado a trabalhar sem retorno; no início de cada transmissão, ele contava até 10 e começava a falar. Bravo? Zé Arnaldo só tinha cara de bravo, carrancudo; por dentro era uma ótima pessoa. Vim para São Paulo para me alistar para ao serviço militar, em 1956, mas não cheguei a ser chamado, porque havia excesso de contingente. E uma vez que aqui estava, aqui fiquei. Trabalhei em empresas multinacionais e, por sugestão de um amigo gerente do Bradesco, inscrevi-me no curso de Direito da FMU, que ficava perto de casa, na região da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio. 

Outra questão que me motivo a fazer um curso superior: o desejo de subir de posto na empresa. O meu chefe na ocasião disse que a promoção só viria quando eu tivesse diploma de graduação. Fiz e depois de concluído, mandei convite de formatura para o então ex-chefe (Rubens Barbosa de Moraes, mariliense que vivia em São Paulo desde 1956, em depoimento a mim e a Sueli na tarde de 19 de Maio de 2016).


José Arnaldo só tomava cerveja Antarctica. Tomava e enaltecia a bebida como a melhor cerveja que conhecia. Por conta disso, em diversas ocasiões os sobrinhos trocaram os rótulos das garrafas de cerveja: tiravam os rótulos da Brahma e colavam os da Antarctica. E assim provocavam José Arnaldo, perguntando se a cerveja estava boa apenas para ouvir dele: “Sim, porque esta é melhor cerveja que existe” (Jader Gaudêncio, na casa de Rita e Wilson Demori com eles e os sobrinhos Jader Gaudêncio e Raquel).


Logo que começamos a namorar, eu (Jader) e Raquel, uma das sobrinhas preferidas de José Arnaldo), ele me chamou para uma conversa particular e quis saber: “Quais são suas intenções para com a Raquel?” E acrescentou: “Você sabe que ela é como se minha filha fosse, não sabe?” Por conta disso, José Arnaldo passou a ser o meu tio preferido e por isso eu dava a ele as maiores e melhores das atenções, sempre servindo cerveja e carne de primeira durante os churrascos que eu mesmo preparava (Jader, marido de Raquel, filha do casal Madalena e Antônio Coércio).


Eudes Coércio, sobrinho: Lembro que todas as viagens entre Marília e São Paulo a Tia Maria tinha que acompanhar a Tia Cida que o Tio Zéca não a deixava viajar só. Lembro também que ele era comissário de menores e nós adolescentes, escondíamos dele na zona. Ele dava batidas em ambientes como aquele, proibidos para menores. Pois bem: um belo dia, ele chegou em casa e falou: “Madalena, esse menino não sai da zona; ali é lugar de homem e não de menino. Algumas boas lembranças: Sábado de aleluia era ele o costureiro que confeccionava o Judas. Em 1972 ele foi convidado pelo Departamento de Educação e Desportos do MEC para cobrir os Jogos Estudantis Brasileiros (JEBS) em Maceió, AL.


Eliane Kater: O Zéca era primo de minha mãe, Isabel Braus Kater. Morava em Marília e nós em Paraguaçu Paulista. Minha avó, Encarnación Braojos Padilla, também morava em Marília e, quando íamos vê-la, passávamos na casa do Zéca e da Cidinha. Várias vezes eles visitavam nossa casa, com todos os filhos. Isso acontecia aos finais de semana e era muito divertido. Naquela época, era comum as famílias se visitarem e compartilharem as novidades. A Sueli deve ter muitas lembranças dessa época. O Zéca era considerado um herói por ter participado da Segunda Guerra. Também tinha escrito um diário de guerra que tínhamos muita curiosidade de ler, principalmente, por ter falado do aniversário da mãe dele. Infelizmente, nunca tive acesso a essa relíquia. Espero ter mostrado um pouquinho do Zeca que nós convivemos.

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