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ESCRITOR, ESCOLHA A SUA PÍLULA - RAPHAEL COUTINHO

28/06/2021


Você provavelmente já deve ter assistido Matrix, um dos mais aclamados filmes do gênero de ficção científica do século. Algo que talvez não tenha notado, é que uma excelente reflexão pode ser retirada dessa cena para sua carreira como autor:

Sua carreira: saia da Matrix!

A pílula vermelha é  a “verdade dolorosa”, enquanto a azul representa a “ignorância abençoada”. Sabendo disso, qual das duas você escolhe? Para ficar mais claro o entendimento, vou começar falando sobre esta última. Se o escritor escolher tomar a pílula azul, este ficará preso em um mundo fantasioso, cômodo e confortável, sem muitas vezes se dar conta disso. Muita coisa irá acontecer neste estado de ilusão, e ele não terá as respostas que precisa, mas perderá bastante tempo se divertindo ao sonhar acordado com os possíveis acontecimentos:

  • Contratos milionários com editoras renomadas;

  • Lançamentos e noites de autógrafos com fãs, celebridades e paparazzis;

  • Adaptações de todos os seus livros para o cinema;

  • Uma carreira internacional com traduções nas mais diversas línguas...

Tudo isso e muito mais faz parte do imaginário coletivo de boa parte dos escritores que acabam de finalizar o seu primeiro livro. E não estou aqui para julgar o sonho de ninguém, mas sonhos permanecerão sendo apenas sonhos e jamais se realizarão, enquanto você não acordar. Que é o que geralmente acontece com o autor que faz a escolha fácil, a da pílula azul.

Acontece que, assim que finaliza o último capítulo do livro, imediatamente começa a corrida para encontrar a editora mais top do mercado, a sortuda que irá publicar a obra que já nasceu um clássico. Envia o original (chamado carinhosamente de filho ou de bebê) para uma, duas, quatro, dez editoras... e nenhuma, ao passar dos dias, lhe dá o devido retorno. Mesmo assim, continua acreditando piamente que uma delas, quando menos esperar, enviará algo do tipo: 

“Encontramos o nosso novo Paulo Coelho!”

Show de BURRICES do Clube Cético - Página 2

“ O seu livro será o próximo Harry Potter!”

JK Rowling surpreende fãs ao revelar o verdadeiro local de nascimento de Harry  Potter - Jornal O Globo

Mas não, não foi o que aconteceu. A verdade dolorosa é que dedicou boa parte do tempo livre para dar “F5” na Caixa de Entrada do e-mail, e não viu nada chegar por ali. Nem mesmo um NÃO. Sem nem imaginar que o seu original está na companhia de centenas de outros órfãs, em pilhas amontoadas, lotando uma escura sala. Aqueles poucos escritores sortudos que chegam a receber um SIM, deparam-se com a surpresa de um boleto em anexo, que servirá para custear o processo editorial, no todo ou em partes.

Furioso e se sentindo traído por uma expectativa a si mesmo criada, usa sua amargura em busca de vingança, tornando-se um militante fervoroso dos grupos de autores do Facebook e WhatsApp. Isso é o que geralmente acontece quando nos agarramos a uma certa visão romantizada da carreira, que nos faz crer que será mais fácil do que realmente é. 

E sabe qual é a outra dura realidade, aquela que só vem quando se escolhe tomar a pílula vermelha?  As editoras preferem pagar milhares de dólares em uma obra estrangeira (gastos com antecipados royalties, tradução, produção editorial...) do que arcar com o risco de lançar a obra de um autor nacional principiante.

andrez@ - Blog - GameDesire

Sabe por quê? Porque é mais rentável e lucrativo para as editoras fazerem isso, pois os livros gringos já vêm com o seu marketing pronto, o autor com uma carreira consolidada, uma adaptação prestes a sair na Netflix, só no ponto de encontrar o seu ávido público leitor que não aguentava mais de tanta espera.

Eu te faço a seguinte pergunta: se você é dono de uma empresa com uma margem de lucro apertada – precisando pagar funcionários, fornecedores, distribuidores. Além disso, recebendo calotes de livrarias que não querem te pagar (você deixou tudo lá consignado), o preço do papel só subindo, pessoas pirateando na internet aqueles livros que você acabou de lançar – em um país em que lhe aparecem mais escritores do que leitores, preferiria apostar em um livro recém escrito (mal revisado e, muitas vezes, mal escrito de um autor estreante) ou no livro de um autor campeão de vendas? Pois bem, você acaba de engolir aquela pílula com gosto e cor de sangue.

Reitero que o meu objetivo com este texto não é o de desmotivar nenhum autor iniciante, pelo contrário. É mostrar que, enquanto este optar por NÃO querer ver a realidade do mercado literário brasileiro, com a seriedade que se espera, do modo como ela realmente é, continuará mergulhado numa Matrix.

Vai aí um bom conselho meu: coloque seu livro para ser lido e analisado por outras pessoas, além do seu irmão ou da sua prima, invista em uma leitura crítica profissional. Parece um tanto ilógico gastar dinheiro para alguém sair te “criticando”, ainda mais criticar um trabalho que você fez com tanto amor, empenho e que levou tanto tempo para finalizar. Eu sei, dói. É muito ruim, também passei por isso. Mas irá sobreviver, e sairá disso mais preparado para continuar. Isso eu te garanto.

Por exemplo, para o meu primeiro livro juvenil, “O garoto chamado Tony Louco”, eu optei por fazer esse investimento, paguei uma renomada leitora crítica. Não foi barato para mim, fiquei com pena de gastar tanto dinheiro, mas se eu continuasse com aquela teimosia barata, continuaria só recebendo NÃO atrás de NÃO. Eu já estava cansado dessa vida, de cachorro chutado na esquina, queria que alguém me dissesse se o problema estava comigo ou com o sistema “cruel” criado pelas editoras.

Então, quando eu recebi o e-mail, após 2 meses do envio, fiquei bem deprimido com o que li. Uma avalanche de críticas e sugestões de melhorias. Como todo aprendiz ignorante, foi mais fácil para mim jogar a culpa nela: “Acho que essa mulher não soube entender o que eu quis dizer!”. Não, não era ela que não soube entender minha estória. E por sinal, jamais faça isso que eu fiz, jogar a culpa no leitor (ainda mais se o leitor é um profissional do meio). A culpa do seu texto estar incompreensível é sua, inteiramente sua!

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Acontece que eu estava completamente apaixonado pelo livro que eu criei, por tudo o que tinha colocado ali. E como todos sabem, a paixão nos cega. Como eu poderia aceitar que falassem mal de algo que havia dedicado anos da minha vida para construir? Eu sabia que tinha algo de valor, algo diferente, algo especial! É claro que tinha, mas como todo diamante, precisa ser lapidado, pois do contrário será confundido com um simples pedregulho. Para a minha sorte, com o passar dos dias, aquela ferida que tinha se aberto no meu ego pelas críticas foi, aos poucos, cicatrizando. Busquei revisitar aqueles duros apontamentos, e tive que assumir para mim mesmo: “O problema está no meu texto, no meu livro, e não no mercado editorial”.

Para evoluir como escritor, vi que o primeiro passo foi fazer isso, dar fim ao que mais me limitava: minha vaidade de autor. É comum o escritor se deixar elevar pelos elogios, ou por sonhar acordado com um dia em que isso acorrerá. Porém, ser escritor é um gesto, antes de tudo, de humildade, já que trabalhamos para levar o melhor texto possível aos nossos leitores, para que tenham sensações e experiências incríveis.

Depois da leitura crítica, foi a vez de contratar outro profissional do texto: o revisor. Até porque, nem sempre nós iremos dominar todos os pormenores de nossa língua, não é mesmo? Para ser um escritor, você não precisa ser formado em Letras, Jornalismo ou ser um Gramático conceituado. Nada disso vai importar se você estiver aberto a ter a ajuda de outros profissionais, e para isso, você terá que abrir sua carteira.

Até porque, todo nós escritores temos vícios de linguagem que são praticamente invisíveis para nós mesmos (se você achou vícios de linguagem nesse meu texto, deixe aí nos comentários, eu agradeço). Apenas um olhar externo, conseguirá encontrar de sutilezas a erros grosseiros, daqueles que você olha e diz: “Meu Deus, como é que eu escrevi essa palavra assim?”. Fazendo uma comparação, é como se nós escritores fossemos os “pilotos da F1” e os revisores de texto fosse aquele pessoal do “Pit-stop” -conserta frase, ticara frase, arruma palavras, tira palavra... - como se trocassem pneus ou regulassem o nível do óleo.

Ferrari's amazing pit-stop choreography | Choreography, Funny gif, Pit

Ao final dessa minha empreitada, com meu texto já bem arrumadinho, polido e limpo, devidamente coerente e agradável aos olhos de quem fosse lê-lo, fui para o próximo passo: submetê-lo a concursos literários e o envio para editoras. O resultado:

Então, a mensagem que deixo para você, que está começando agora, é a seguinte: não desista do sonho de publicar um livro. Você é capaz de conseguir tudo aquilo que planeja, mas precisará fazer escolhas acertadas se quiser chegar lá. E o caminho não é curto, são várias etapas e processos. Sei que já conquistei muita coisa, mas sinto que posso dar muito mais, e só dependerá de mim. Preciso estar aberto para aprender com quem já está alguns anos na minha frente, assim como ensinar o que já sei para quem vem logo atrás de mim.

Só para complementar: finalizei meu curso de Marketing este ano, pensando nos conhecimentos que teria para vender mais livros. Depois, contratei os serviços da ME Assessoria, que faz o canal que eu preciso no meio literário e cuida da construção da minha imagem como marca. Por fim, no segundo semestre de 2021, irei começar minha pós-graduação em Escrita Criativa pela PUC- MG, tudo para que eu possa continuar evoluindo, e ser um autor cada vez melhor.

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Espero que eu o tenha ajudado de alguma forma, dividindo parte do que aprendi nessa minha trajetória até aqui. Se sim, deixe nos comentários, pois seu feedback é mais do que importante.

Até a próxima!

Em Matrix, a escolha moral pela verdade,... - A Pílula Vermelha | فېسبوک

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Raphael Coutinho possui formação em Marketing e é um dos principais autores do Grupo Editorial Coerência. Seu livro mais conhecida é “O garoto chamado Tony Louco”, obra juvenil ambientada nas nossas escolas públicas, que lhe concedeu diversos prêmios. Também publicou contos em algumas antologias e revistas literárias. Atualmente se dedica a dividir seus tempo com o ofício da escrita, voluntariado e o serviço público.





Comentários
7 Comentários

7 comentários:

  1. Que legal. Adorei o post. Ótimas dicas, muito valiosas para escritores que estão começando e ainda tem algumas ilusões ou crenças em relação a tudo, principalmente o mercado literário.

    www.vivendosentimentos.com.br

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    1. Muito feliz que o meu texto tenha sido enriquecedor para você 😍

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  2. Parabéns por escrever uma postagem tão real, verdadeira e incentivadora!
    Nada nessa vida é fácil, percebo isso na minha profissão jurídica, quando estamos iniciando, nem sempre temos a oportunidade e quando recebemos uma crítica, às vezes é difícil reconhecer o ponto de vista do criticador e ter humildade para corrigir. Mas tendo força de vontade e persistência, a vitória chega um dia.
    Adorei suas fotos e que você tenha muito sucesso na carreira literária.
    Beijos.

    Diário da Lady

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  3. Muito me alegra saber que você gostou!

    Obrigado de coração.

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  4. Para se firmar em uma carreira temos que enfrentar vários empecilhos e muitas vezes, esses momentos são bastante desanimadores, mas também são esses momentos que nos tornam mais fortes para lutar por nossos objetivos.
    A literatura nacional ainda é um pouco rejeitada, mas a cada dia está ganhando espaço.
    Você é um ótimo autor e a cada dia seu talento está chegando na casa dos leitores e conquistando-o.
    Eu te desejo muito sucesso nos seus próximos trabalho.
    Estou ansiosa para ler o segundo livro do Tony. 😊😉

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    1. Oh,Danivia. Você é uma querida. É tão importante para o autor saber que sua obra despertou sentimentos e marca os leitores de alguma forma. Feliz que tenha feito isso contigo. 😍👏 Obrigado por deixar meu coração aquecido 🙌

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    2. Oh,Danivia. Você é uma querida. É tão importante para o autor saber que sua obra despertou sentimentos e marca os leitores de alguma forma. Feliz que tenha feito isso contigo. 😍👏 Obrigado por deixar meu coração aquecido 🙌

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