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CONHECE-TE A TI MESMO: CRÔNICA DE UM ARQUITETO DE VIDAS - ROBISON SÁ

02/06/2021

 


O balanço da cadeira

Os primeiros raios de sol despontavam por detrás de uma árvore matriarcal sobre o cume da Colina Anã — nome que dei à menor colina da cadeia de colinas na mira de minha visão matinal.

Os meus olhos, ainda habitados pelo sono, se contraíam, mas não conseguiam deixar de olhar para aquela imagem celestial: raios alaranjados perfurando a folhagem daquela árvore gigante, neblina se dissipando, nuvens se fragmentando e liberando o azul do céu, pássaros em sinfonia e, na pele, um vento frio a me tocar. 

Minha cadeira de balanço, companheira de tantos momentos, balançava-me como nunca. O seu ritmo era calmo e hipnotizante, criando asas em minha mente vagante e insaciável. 

Não sei se aquela manhã foi realmente da forma que narro nessas linhas, mas ela não me vem à mente de outra forma. Na verdade, essa lembrança nunca se foi, sempre permaneceu em mim, impregnada, aquecendo-me com uma paz impossível de descrever. Aquele foi um dia de metamorfose para mim. A porta que naquele momento se abriu nunca mais se fechou.

Um visitante inesperado

O frio já não era mais intenso e o calor já pincelava minha pele exposta. Eu ainda estava inebriado com o cenário diante de mim. Não me lembro de antes ter sentido tamanha paz. A pressa tinha desaparecido. As inúmeras responsabilidades podiam esperar. Seria desastroso macular aquele momento com preocupações e angústias. Aquele era um tempo de paz. Tudo pareceu desacelerar em minha frente. Dava para enxergar a vida e seus contornos. 

Ouvi uma voz que me chamava para tomar o café da manhã. Era minha esposa. Virei-me e falei para ela que estava sem fome. Ela compreendeu a minha necessidade de um tempo sozinho, acenou para mim, segurando um beijo na palma de sua mão, e entrou novamente.

“Por que tem andado tão angustiado, jovem?”

Na busca pelo dono daquela voz, olhei para os lados e para trás. Não vi ninguém. Constatei apenas o que eu já sabia: eu estava sozinho ali. 

Aquela pergunta ecoava em minha mente e exigia uma resposta. Passou-se um tempo razoável até que me caiu a ficha: aquela voz estava dentro de mim. Eu não podia escapar dela. Aonde quer que eu fosse, lá ela estaria. A voz que me perguntava sobre as minhas angústias era a minha voz interior, por muito tempo sufocada, aprisionada pelo seu dono, ansiosa para questionar, para participar das soluções dos meus problemas mais profundos.

“Talvez as coisas não estejam saindo como um dia planejei”, respondi, sem ter que verbalizar uma palavra sequer.

“Elas estão tão ruins assim?”, mais uma pergunta que me levou à reflexão.

Eu estava sendo amassado contra minhas próprias paredes. Aquilo causou um desequilíbrio em mim, que não tinha o hábito de marcar encontros comigo mesmo. Mas, de alguma maneira, comecei a me embrenhar na conversa. Saber que aquilo tudo permaneceria em segredo me dava a segurança de continuar colocando para fora os segredos que esmurravam minha mente na tentativa de escapar.

“Sim, estão”, respirei fundo, silenciei por um ou dois minutos e continuei:

“Planejei uma vida muito diferente. Eu queria terminar a minha graduação e, o mais breve possível, começar a trabalhar na minha área de formação. Não enfrentei o curso de Matemática à toa. Foram tantas estradas pedregosas para chegar até aqui… pra nada. Não me sinto realizado, sabe? O que estou proporcionando de bom à minha esposa? E quando a nossa filha chegar? Isso já está muito perto de acontecer. Fracassei nos meus planos e estou arrastando muita gente para o buraco onde me meti”, dei mais uma pequena pausa.

“Em meus planos, previ que daria uma vida melhor para minha família. Além de não ganhar o suficiente mensalmente, não estou atuando onde eu gostaria de atuar. Pensei em dar aulas, em conviver com os alunos, em ajudá-los na arquitetura de suas vidas, em contribuir para os seus sucessos. Nada disso estou fazendo. Por mais que eu me esforce, não consigo mais suportar conviver com essa contradição aos meus sonhos”.

Em poucos minutos, despejei minhas angústias mais profundas. Tudo que estava me sufocando, pus para fora. Já era possível sentir um certo alívio. Havia muita coisa presa em um pequeno espaço. 

“E o que te impede de rumar aos seus sonhos?”, o visitante invisível me perguntou.

“Acho que nunca quis pagar a conta, sabe? Devo focar nos estudos para concursos públicos. Isso me levará o tempo de diversão, os longos papos com os amigos, meus programas preferidos com minha esposa… é tudo tão caro”.

“E o preço que hoje você está pagando é barato? Já colocou essas duas situações na balança?”, fui chamado a refletir outra vez.

“Creio que seja ainda mais caro. Na verdade, acredito que nunca quis de fato assumir a responsabilidade pelas minhas escolhas. Escolhi um caminho fácil e culpei o mundo pelos fracassos que eu mesmo produzi. Durante um tempo, era cômodo, mas agora me incomoda. Pouco a pouco, como tijolo sobre tijolo, as pequenas angústias se tornaram uma muralha monstruosa em minha vida. Preciso derrubá-la para seguir em frente. Agora sei o que me faz sofrer silenciosamente.”

Aquele dia não parecia real. Tudo ali era fantástico: o cenário paradisíaco que jamais tinha visto, mesmo morando ali fazia tempo; aquele bate-papo comigo mesmo; o cheiro de café que vinha da cozinha de minha casa e ressuscitava a fome que jazia em mim; aquela paz penetrante e integral… 

“Mas você pode mudar isso. Se você já sabe o que realmente quer, comece hoje a arquitetar esse futuro.”

Eu sabia que não seria fácil, mas era muito necessário. Estava claro o quanto isso doeria, mas eu também estava ciente das dores incuráveis que a decisão de não pagar o preço dessa mudança de vida me traria. Estava na hora. Nenhum dia a mais podia ser adiado. 

O baú do tesouro

Muitas voltas a vida tinha dado até aquele encontro incrível comigo mesmo. Muitos outros reencontros acontecem desde então. Aprendi a reservar um tempo na agenda para o ócio. Nele, reflito e me ouço, vejo e revejo meus valores, meus objetivos, meus desejos mais profundos, aquilo que dói em mim, aquilo que me motiva e me alegra, os estopins da felicidade.

Aquela mágica manhã, pista por pista, me levou a um baú de tesouros valiosíssimos. 

Ao sair da cadeira de balanço, uma decisão tinha sido tomada: eu pagaria o preço. De fato, o paguei. Passei centenas de horas estudando para concursos públicos. Fiz duas especializações e estou fazendo uma segunda graduação. Prestei concurso uma vez para professor de Matemática na Rede Estadual de Educação do Estado de Sergipe e três vezes para o Banco do Brasil. Fui aprovado e classificado todas as vezes. Escolhi a Educação, terreno de paz para o meu coração, lugar onde posso contribuir para a arquitetura de vidas. 

Há quatro anos atuo no Programa Educa Mais, que nos trouxe o Ensino Médio em Tempo Integral, nos moldes do pioneiro Ginásio Pernambucano. Nele, fui presenteado com o componente Projeto de Vida. Que coisa maravilhosa e transformadora. Pude aprender, desenvolver e aperfeiçoar ferramentas que convertem sonhos em projetos e projetos em realizações. 

Da experiência na Educação e dos meus reencontros comigo mesmo, tornei-me escritor. Já publiquei centenas de textos em portais de educação, em revistas científicas, em revistas de desenvolvimento pessoal e em Antologias. Em 2020, resolvi levar a coisa ainda mais a sério e publiquei o meu primeiro livro: “10 receitas para uma vida melhor”. Em março de 2021, foi a vez de eu publicar o livro “Arquitetos de Vidas”, mostrando, em detalhes, como converter sonhos em projetos e projetos em realizações.

Hoje, ao lado de minha filha e de minha esposa, sinto-me leve e feliz. O preço foi pago e a mudança de vida aconteceu. Era isso ou pagar para sempre o preço amargo das angústias. Outros projetos estão em curso, claro, pois não consigo imaginar uma vida sem sonhos, planejamentos, ações e realizações. Mas tudo se tornou mais simples depois que consegui estabilidade emocional e financeira, bem como aquele lugar incrível de encontro com o eu mais sábio que habita as profundezas de mim.

Todas essas conquistas são sementes dos frutos que colhi naquela manhã inesquecível. Contudo, de todos os tesouros que encontrei, o mais valioso foi o conhecimento de que posso, diariamente, conhecer um pouco mais de mim. Nos momentos de introspecção, viajo um pouco mais fundo em mim e descubro coisas que me ajudam a ir um pouco além.  

Arquitetar Vidas é, antes de tudo, o que os gregos chamaram de conhecer a si mesmo. Esse é o ponto de partida, mas também é o ponto de chegada.

E você, tem reservado momentos de encontro consigo mesmo? 

O que você sabe sobre arquitetar vidas?

Há algum momento em sua vida que ficou permanentemente gravado em suas memórias?

Conte-nos nos comentários.

Até o nosso próximo encontro.



Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Adorei o relato, bastante reflexivo. Tenho muitos momentos que marcaram minha vida e é nostálgico relembrá-los.

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  2. Que bonito, é bem reflexivo e ele tem uma historia de vida que lembra muito cena de filme na narrativa, sabe?
    Arquitetar vidas... acho que preciso me conhecer mais, sabe? Mas tenho momentos que ficam na memória, um muito bom foi a viagem que eu fiz antes da pandemia em 2019 para Foz do Iguaçu
    Me traz saudade, sabe?

    Beijos!
    Pâm
    Blog Interrupted Dreamer

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    Respostas
    1. É verdade Pâm, você vai gostar muito de ler Arquitetos de Vidas!

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